O perigo do conhecimento separado da fé

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Lucas 4: 28-30

Para entendermos esta passagem bíblica, devemos conhecer melhor o contexto em que ela está inserida. Podemos notar que o verso 16 do mesmo capítulo 4 de Lucas diz assim:

“Jesus foi para a Cidade de Nazaré, onde havia crescido”. (Lc. 4: 16 NTLH)

Embora Jesus tenha nascido em Belém, Ele foi criado em Nazaré, onde passou toda a sua infância e juventude, convivendo por muitos anos com os moradores de lá.

Jesus devia ser bem conhecido em Nazaré pela excelência de seu caráter, pela sua vida irrepreensível, por sua conduta marcante, sua educação. Jesus devia receber muitos elogios e reconhecimentos por parte das pessoas, por ser um bom filho, responsável com suas obrigações, um estudante contumaz das Escrituras Sagradas, agradável no trato com as pessoas e sempre pronto a ajudá-las, enfim, uma pessoa admirada por todos daquela região. Certamente, Jesus era conhecido por essas qualidades.

Mas, no devido tempo, Jesus deixou Nazaré, e após ser batizado por João Batista no rio Jordão, começou sua missão, pregando e ensinando às pessoas acerca do Reino de Deus, do arrependimento de seus pecados e realizando muitos milagres.

Sua fama se alastrou por toda a região, chegando até a pequena cidade de Nazaré, onde Ele havia crescido, e seus moradores certamente comentavam com frequência uns com os outros: “decerto, Ele voltará um dia para casa, para ver os seus pais. Quando vier, todos nós vamos então ouvir seus ensinamentos, o que o filho do carpinteiro tem a dizer”.

Jesus foi criado com eles, todos conheciam sua família, como veremos, e agora, ficam sabendo de sua fama, como ele atraía centenas, milhares de pessoas para ouvi-lo e ver seus milagres. É natural que pensassem assim.

Há sempre certa curiosidade local em ouvir um jovem do vilarejo que haja saído dali e se tornado um pregador famoso, mas, no caso de Jesus, esse interesse aumentava mais ainda pela expectativa de se verem milagres e curas de enfermidades, expulsão de demônios como os que se sabia haver operado em regiões vizinhas a Nazaré.

A curiosidade devia ser enorme, pois todo mundo esperava e confiava que Jesus viesse a tornar a pequena cidade de Nazaré famosa entre todas as cidades das tribos de Israel.

Quem sabe Jesus se estabelecesse ali e atraísse uma grande multidão de fregueses de toda parte para o comércio local, ao se consagrar como o grande médico de Nazaré, o grande realizador de milagres daquela área!

Então, finalmente, chegou o dia, Jesus foi para Nazaré (v. 16). O interesse por sua pessoa cresceu bastante ao se aproximar o sábado. Os homens daquela cidade deviam se perguntar: “O que você acha? Ele estará na sinagoga amanhã?” “Se for, deverá ser convidado, de alguma forma a falar, afinal, nós queremos ouvi-lo”.

Então, no sábado, o chefe da sinagoga, tendo visto Jesus presente, pegou o livro do profeta Isaías e passou às Suas mãos para que Ele lesse uma passagem e comentasse sobre o texto lido. (v. 17).

Todos os olhos estavam atentos, voltado para Jesus, não havia homem algum sonolento ou distraído na sinagoga naquela manhã.

No momento em que tomou o livro, Jesus o abriu, como alguém que sabe exatamente o que está fazendo, na passagem mais pertinente e aplicável a si mesmo.

Leu o texto de pé, prestando, por meio de sua postura, o devido respeito à Palavra de Deus.

Então fechou o Livro e voltou a se sentar, porque esse era o costume em Israel, naquele tempo, quando um Mestre fosse ensinar as Escrituras Sagradas, ele tomava o assento e os ouvintes se colocavam de pé. (v. 20).

Como mencionei anteriormente, a passagem que Jesus leu foi muito adequada e aplicável a Ele mesmo. Vamos ler então os versos 18 e 19 de Lucas 4:

“O Senhor me deu o seu Espírito. Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres, e me enviou para anunciar a liberdade aos presos, dar vista aos cegos, libertar os que estão sendo oprimidos e anunciar que chegou o tempo em que o Senhor salvará o seu povo” (Lc. 4: 18,19 NTLH). 

O interessante que, ao ler essa porção das Escrituras Sagradas, contida no Livro de Isaías capítulo 61: 1 e 2, Jesus interrompe sua leitura praticamente no meio de uma frase: “...e anunciar que chegou o tempo em que o Senhor Salvará o Seu Povo”, (v.19) e parou ali.

Esse último versículo lido por Jesus não fica completo se não ler as palavras seguintes:

 “que chegou o dia em que o nosso Deus se vingará dos seus inimigos” (Isaías 61: 2b).

A Bíblia não diz por que Jesus interrompeu a leitura não chegando até o final do versículo, mas sabiamente parou naquelas palavras, provavelmente com a intenção de salientar a missão que Deus lhe havia dado, pois o desejo de Seu coração e sua oração por aqueles homens, na verdade, era que pudessem ser salvos, e que aquela ocasião, em vez de ser um dia de vingança, pudesse ser para eles o ano aceitável do Senhor, o ano “em que o Senhor salvará o seu povo”. Essa era a intenção do Senhor, salvar as almas daqueles homens, para que não fossem condenados eternamente.

Então Jesus começou a explicar quem era os pobres, os presos, os cativos, os oprimidos e qual o tipo de Graça Deus provê, por meio da qual concede liberdade, cura e salvação.

As pessoas na sinagoga estavam maravilhadas, ninguém desviava os olhos de Jesus, pois nunca tinham ouvido alguém falar assim, de maneira tão simples e ao mesmo tempo com autoridade e sabedoria. Vejamos: 

“Todos começaram a elogiar Jesus, admirados com a sua maneira agradável e simpática de falar, ...”. (Lc. 4: 22 NTLH). 

Logo, porém, um murmúrio toma conta da sinagoga, uns sussurrando aos outros, e podemos ver isso na mesma passagem no Evangelho de Marcos, capítulo 6: 2b, 3:

“De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aqui?” (Mc. 6: 2b, 3 NTLH). 

Estes homens estavam não somente espantados com a sabedoria de Jesus, mas cheios de inveja e incredulidade.

Observem que aquele povo de Nazaré manifestou sua incredulidade ao se lembrar da origem de Jesus. Eles viam Jesus apenas como o carpinteiro, filho de Maria, cujos irmãos e irmãs eles conheciam. Alem do mais, Jesus não tinha estudado nas escolas rabínicas e eles não podiam explicar seu conhecimento e poder.

Percebendo Jesus os comentários, a inveja e a incredulidade daqueles homens, ele interrompe sua explicação acerca de Sua missão e passa a falar de maneira pessoal, intencional, revelando as intenções e maldades em seus corações.

Então, Jesus cita um ditado conhecido entre eles, no verso 23:

“Médico, cure-se a você mesmo.” E também vão dizer: “Nós sabemos de tudo o que você fez em Cafarnaum; faça as mesmas coisas aqui, na sua própria cidade”. (Lc. 4:23 NTLH). 

Aqueles homens queriam somente provar Jesus e ver seus milagres.

Então Jesus lhes disse que não iria considerar o pedido deles, pois não concordava que, pelo simples fato de ter sido criado naquela cidade e convivido com eles, teria a obrigação de lhes mostrar o Seu poder para satisfazer a vontade deles.

Ao reprovar a incredulidade deles, Jesus disse que:

“nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra”. (Lc. 4: 24 NTLH)

Seus irmãos não creram nele, sua cidade não creu nele, os líderes religiosos não creram nele. A familiaridade, em vez de gerar fé, produziu preconceito e incredulidade. Veja a dificuldade que você tem em falar do Evangelho com seus familiares.

Como exemplo, Jesus lhes lembra que Elias, ao ser chamado para abençoar uma viúva, não foi enviado por Deus para abençoar uma viúva em Israel, mas uma mulher gentia, siro-fenícia, uma viúva que morava em Serepta, perto de Sidom. (cf. versos 25 e 26).

Em seguida, Jesus menciona Eliseu, o profeta sucessor de Elias, capaz de curar leprosos, mas não curou nenhum leproso israelita, mas curou um estrangeiro, vindo de um país distante, como foi Naamã, o sírio. (cf. verso 27).

Jesus estava dizendo, por meio destes exemplos, que a Graça divina é Soberana, e, portanto, não tinha nenhuma obrigação de mostrar o seu Poder para satisfazer a vontade deles, e com isso, declarava-se Ele próprio Deus e livre para fazer o que bem desejasse.

Quando ouviram isso, todos os que estavam na sinagoga, ficaram enfurecidos, com ódio de Jesus. Os mesmos que haviam recebido com boas-vindas o profeta de sua cidade horas atrás, certamente, agora, planejavam a sua morte, procurando jogá-Lo de um despenhadeiro nos limites da cidade, porém, Jesus escapou deles.

Como conseqüência da incredulidade do povo de Nazaré, foi que Jesus não realizou nenhum milagre, em vez disso, deixou a cidade e com isso enfermos deixaram de ser curados e pecadores deixaram de ser perdoados.

Um final estranho para aquilo que tivera um início tão promissor!

No inicio parecia que tudo ia bem, Jesus foi bem acolhido pelos moradores de sua cidade, existia uma expectativa grande em ouvi-Lo, as pessoas estavam maravilhadas com seus ensinos, enfim, qualquer um apostaria em um número incontável de conversões naquele lugar.

Porém não foi isso que aconteceu, como acabamos de ver.

Tal é a perversidade da natureza humana que, onde esperamos muito, alcançamos pouco, e o campo que deveria produzir trigo em abundância nada produz além de espinhos e joio.

Agora que adquirimos um entendimento melhor desta passagem bíblica, vamos considerar alguns pontos:

1) Em primeiro lugar, quem eram os que rejeitaram a Cristo?  

Eram pessoas de sua própria cidade, que tinham um relacionamento mais próximo com Jesus, que conviveram com Ele durante toda a sua infância e juventude, portanto, seria de esperar da parte deles uma demonstração de maior amabilidade.

A familiaridade com Jesus produziu preconceito e não fé. Nada é mais perigoso para a alma do que se acostumar com o sagrado. A origem e a profissão de Jesus foram obstáculos para os seus compatrícios.

Existem pessoas aqui que conhecem a Cristo, que oram, louvam a Deus, crêem na Palavra de Deus e em Jesus como único Senhor e Salvador de suas vidas. 

Elas não duvidam destas verdades, porém, não conseguem viver para agradá-lo, porque não se rendem ao Seu senhorio, por meio da renúncia de seus interesses pessoais. Continuam interesseiras, egoístas e orgulhosas, embora estejam praticando sua rotina religiosa diariamente.

Aquelas pessoas de Nazaré eram as que sabiam mais coisas sobre Cristo. Estavam familiarizadas com sua mãe e demais parentes. Conheciam toda a sua linhagem e também a história completa daquela criança surpreendente, pois conviveram juntos.

Eles reconheciam que Jesus fazia coisas extraordinárias e tinha uma sabedoria sobre-humana. Eles fizeram três perguntas: De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Eles tinham a cabeça cheia de perguntas e coração vazio de fé.

Porque eles não puderam explicá-lo, eles rejeitaram. Eles levantaram muros para se defenderem do Espírito Santo. O contraste entre o humilde carpinteiro e o profeta sobrenatural foi muito grande para eles compreenderem. Então eles escolheram a descrença, uma escolha que deixou Jesus admirado.

Certamente que essas pessoas, conhecedoras das Escrituras Sagradas e dos elementos da Fé cristã, teriam sido ideais para que Jesus lhes ensinasse e convertessem. Mas que nada! Não se comportaram assim.

Existem muitos dentro das igrejas semelhantes a tais pessoas. Você conhece toda a história de Jesus, vários aqui a conhece desde a infância. Mais que isso, você compreende perfeitamente as doutrinas do Evangelho em seu aspecto teórico. É capaz de discutir as verdades do Evangelho e até de ensinar outras pessoas. 

Porém, muito triste é que você, sabendo tanto, pratique tão pouco.

Muitas pessoas se acostumaram com as reuniões onde o pregador sobe ao púlpito para ensinar, e por acharem que conhecem tão bem o evangelho, o mesmo não produz seu efeito por parecer uma historia que lhe é contada e recontada muitas vezes. Ao ouvi-lo pela primeira vez, a própria novidade lhe causou impacto; mas agora não consegue mais sentir esse mesmo interesse porque passou a fazer parte de uma rotina religiosa.

Outro aspecto daqueles homens em Nazaré: 

Eles julgavam ter algum direito sobre Jesus.

Aqueles homens não achavam que fosse um favor ou uma bondade da parte de Jesus curar os doentes daquela cidade. Argumentavam, sem dúvida, o seguinte: “Ele é de Nazaré e por isso tem a obrigação de ajudar este lugar”. Consideravam-se como uma espécie de proprietários de Jesus e que podiam controlar a sua capacidade ou o seu poder segundo a própria vontade deles.

Claro que o Senhor rejeitou essa idéia e não aceitou o seu jugo.

Muitos hoje em dia se julgam donos de uma cadeira cativa no céu, por imaginar em seu coração que, se existe alguém que deva ser salvo, certamente sou eu. Estas pessoas perderam a noção de suas condições espirituais e acham que tem algum direito especial sobre a Graça divina.

2) Em segundo lugar, por que rejeitaram Cristo em Nazaré?

Aqueles homens não achavam que fossem as pessoas certas a quem Jesus chamava para dar uma comissão. Observe que no verso 18, Ele lê que Deus o ungiu “para levar as boas notícias aos pobres”.

Os mais pobres da sinagoga devem ter se sentido contentes diante de tal palavra, mas, como era quase uma máxima de interpretação entre os doutores da lei que não importava o que acontecesse aos pobres, pois poucos, a não ser os ricos, é que podiam entrar no Céu. 

Portanto, o próprio anúncio de um Evangelho para os pobres deve ter soado para eles como algo democrático demais. Porém Jesus se referia mais especificamente aos “humildes de espírito”, quer fossem pobres ou não.

Quando Jesus fala sobre anunciar liberdade aos presos, eles retrucam consigo mesmo que nasceram livres e nunca foram escravos de ninguém.

Mais adiante, Jesus fala sobre cegos. “Cegos?”, pensam eles. “Não é conosco, ou você está nos insultando? Somos homens de excelente visão. Ele que vá pregar a algum dos pecadores que nasceram ou se tornaram cegos. Não precisamos de sua instrução, nem que ele nos abra os olhos.”

Quando Jesus fala sobre os oprimidos, eles entendiam como se tivessem sob a ameaça de açoites por causa de seus pecados. “Não temos pecados pelos quais possamos ser oprimidos”, pensavam eles, “somos pessoas corretas e honradas e nunca fomos punidos pelo açoite da Lei”.

“E o que é o tempo em que o Senhor salvará o seu povo”, se é apenas para os cegos, os presos e os oprimidos? Não somos tais pessoas”.

Portanto, é fácil perceber o motivo pela qual Jesus Cristo foi rejeitado em seus dias e o é hoje por tantas pessoas acostumadas a vir à igreja, simplesmente não sentem a necessidade de um Salvador.

No Livro de Apocalipse 3: 17, diz assim:

“Vocês dizem: “Somos ricos, estamos bem de vida e temos tudo o que precisamos”. Mas não sabem que são miseráveis, infelizes, pobres, nus e cegos”. (Ap. 3; 17 NTLH).

Afirmam ser inteligentes, sábios, iluminados; não sabem que, até que um homem veja a Cristo, caminha nas trevas, é profundamente cego, não vê luz alguma.

Se há alguém aqui que está postergando, adiando ou mesmo desprezando o Evangelho, e que espera por “uma ocasião mais conveniente”, você que vive com o Evangelho diante de si, mas que não segue seus mandamentos, dizendo aos seus pecados, “eu os amo demais para me arrepender de vocês”, ou mesmo diz para sua justiça própria, “eu sou uma pessoa boa, correta, Deus está feliz comigo”.

Saiba que não há nada tão prejudicial quanto à incredulidade aliada à presunção religiosa e a autoconfiança.

A incredulidade foi o mais velho pecado no mundo. Ela começou no Jardim do Éden, onde Eva creu nas promessas do diabo, em vez de crer na Palavra de Deus. A incredulidade traz morte ao mundo. A incredulidade manteve Israel afastado da terra prometida por quarenta anos. A incredulidade é o pecado que especialmente enche o inferno. A incredulidade é o mais tolo e inconseqüente dos pecados, pois leva as pessoas a recusarem a mais clara evidência, a fechar os olhos ao mais límpido testemunho, e ainda crer em enganadoras mentiras. Pior de tudo, a incredulidade é o pecado mais comum do mundo.

Oro para que o Senhor faça com que você se sinta perdido, arruinado, desprezado, pois assim, não terá nada a perder, e então, estará disposto a aceitar mais facilmente o seu Salvador.

Que Deus nos abençoe!

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